Ele morreu na noite anterior, tinha certeza disso, mas de algum modo estava agora acordando no mesmo lugar onde acordou por tantas vezes alguns anos atrás, antes de conquistar tantas coisas, antes de perder tudo.
Quando o sol nasceu no novo dia, ele percebeu que acordou em uma vida nova. E devia ser nova porque, como em toda vida que começa nova, ele não tinha nada, nem ninguém. Algumas pessoas encaram essa ideia com o conforto de recomeçar e conquistar, mas ele balançou a cabeça e chorou por tudo o que ficou no dia anterior. Não possuía forças para lutar por si.
Foram horas em que ficou sentado na grama fofa antes de criar a força de vontade necessária para se colocar de pé, e mais um pouco de tempo para se colocar em movimento. Caminhou sem rumo, ou seguindo qualquer rumo que conhecia automaticamente. Alguma programação do passado. Chegou a um lago que reconhecia.
Olhou para a água e viu um demônio descansando na superfície. Parecia calmo, humano e bonito, mas se percebia que era um demônio por seu olhar maligno e o sorriso torto. A criatura não fazia nada, apenas olhava de volta. A água parada. Não havia som ou vento. O mesmo demônio de sempre, seu inimigo.
Ele tentou falar, mas por um momento duvidou de que tinha voz. Quando se convenceu de que deveria sim ter uma, não encontrou força para abrir a boca. Silêncio. Olhos cruzados, e o sorriso torto do demônio.
Quando conseguiu pensar em algo significativo para dizer percebeu que o demônio ria. É claro, a criatura já devia saber o que ele diria, e já achava graça do ridículo que aquilo era. Guardou as palavras e continuou calado, o demônio diminuindo o riso. Quando levantou a mão para fazer um gesto, sentiu amarras e pesos, e entendeu que era o ser no lago segurando seu corpo.
Ele percebeu então que vestia uma armadura, e que havia uma espada presa à sua cinta. A armadura, ele sabia que não funcionava contra seu inimigo, e ele não entendia o motivo. Parecia resistente e durável, apesar de remendada e antiga, mas ele sabia que não ia resistir aos golpes da criatura. Ele percebeu que sabia como lutar, mas não sentiu energia ou motivação para isso. Percebeu que não havia segurança em uma espada, ela não tinha o poder de dar a vida, apenas de tirar. Ela não era coragem, mas uma maldição. Sempre que golpeava acertava seus companheiros, nunca o demônio.
Sabia que precisava descobrir que tipo de armadura vestir, sabia que precisava de um escudo para se defender e contra-atacar, e sabia que precisava conhecer melhor o demônio para acertar os golpes da espada. Sabia que por mais que tentasse ainda não conseguia nada disso.
“Talvez você só não seja um soldado. Você me parece mais um suporte, atrás das linhas, defendendo a retaguarda e ajudando os feridos” – a voz de alguém no passado passou pela mente dele. Mas ele tinha que ser soldado, tinha que lutar, que vencer!
Ele ia se lembrando do que aconteceu no último ano e até aquela noite… De ser indiferente, absorto, do mal que fez para todos que amou. De eventualmente eles se afastarem para não ficarem loucos quando olhavam para os olhos demoníacos. De quando ele percebeu que alguma coisa estava errada, mas era tarde para todos, e a luta machucou muito os envolvidos e as feridas já eram profundas demais. Cicatrizes ficam. Lembrou-se de ter feito coisas ruins justificadas por querer preservar as tais pessoas amadas; alguns tentaram ficar, mas já estavam debilitados demais. Eles precisavam sair dali! Preservarem-se! Ter a oportunidade de sobreviver àquilo e viver!
“Não, vão embora!”, ele pensava, “esse demônio é meu inimigo e só meu, não vou permitir que ele machuque mais ninguém!”. Ele afastou todos, na esperança de que eles encontrassem seus próprios rumos, lutassem suas próprias lutas, por mais que alguns deles relutassem e quisessem ficar. Não sabia se estava arrependido ou não de seu sacrifício. Ele tinha que lutar! Tinha que vencer! Sozinho! Mas fosse o que fosse, aquele demônio iria cair! Não iria?
Lentamente, até mesmo seus pensamentos fugiram. E ele percebeu que não controlava nada de si mesmo, do corpo ao pensamento.
Ele desistiu e se rendeu, caindo de joelhos. Quando abriu os olhos, percebeu que estava na margem do lago. Percebeu que não havia demônio na água, apenas o reflexo das coisas. O seu reflexo.
Percebeu seu olhar e seu sorriso.
