2019 que se foda

Todo mundo já começando seus balanços anuais com postagens motivacionais e filosóficas nas redes sociais – e eu leio todas com carinho e bato palmas por eles.

Mas eu vou resumir meu ano em uma frase: 2019 foi uma bosta e o pior ano da minha vida.

E 2019 é só uma demarcação de tempo – concepção inventada e humana – dentro do tempo – a dimensão física que só anda em uma direção -, e eu tô pouco me fodendo pra se ele começou e acabou. Meu tempo – o inventado e o físico – não acabou, e eu posso fazer ele ser melhor e cada vez mais.

Mas voltando pra 2019… foi uma bosta etc, mas está terminando com os melhores meses da minha vida. Pude focar, estabilizar, esquecer, conhecer, fazer, sair, entrar, deixar, conhecer, começar e terminar uma porrada de coisas, e tô caminhando pra algo incrível. O espaço delimitado no tempo chamado “2020” vai começar com muita coisa boa e nova, muitas apostas, muita conquista.

Como todo o tempo (inventado) antes de 13/12/2019 é passado, ele que se foda – que fique o aprendizado que ele me deixou no presente pra eu usar no caminho de um futuro que sei lá eu o que vai ser, mas que vai ser melhor e cada vez mais, mas que tanto faz, vou vivendo o agora (físico e inventado) do melhor jeito que posso, sendo o melhor eu que posso ser, me cuidando e cuidando de quem e do que eu amo. Planejar é diferente de se preocupar doente e exageradamente.

Fecho 2019 (espero, né, ainda não acabou e a vida ainda tá rolando) com tudo o que eu preciso, nem tudo o que eu quero – mas tudo o que eu posso ter. E está bom, e eu estou, no momento, no geral, feliz. E eu nem sei se o que eu quero e não tenho é realmente o bom pra mim, só tô arriscando e tem outra porção de coisas aí pra eu conquistar e não posso ficar parado. (Né, Raul?)

O tempo não para em sua inexorável caminhada à fatalidade do infinito, e nem eu vou parar. Ser, estar, parecer, permanecer, ficar, tornar-se, continuar, viver. Verbos de ligação – e com eles tento me ligar à vida. Por muito tempo me permiti só existir, sendo levado e não levando. Pretendo ser quem eu sou, estar onde eu estiver, parecer as coisas em que acredito, permanecer em mim e em minha vida, ficar bem e feliz sempre que possível, tornar-me algo melhor sempre. Continuar sempre em frente, e viver realmente a vida.

“Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.”
– Franz Kafka

Faz muito tempo que li isso, e sempre entendi como uma ideia errada de completude, de propósito ou de posse – sempre unilateral, aliás. Mas… Uma gaiola é um objeto imóvel, ela não sai à procura de nada. Quando eu deixar de ser uma gaiola, posso escolher o que eu quero ser. Talvez eu seja o pássaro, e não enxergo isso, ou não quero assumir.

Minha ideia sobre isso mudou. Eu preciso me abrir. Uma gaiola não é uma gaiola se está aberta. Se eu parar de ser uma gaiola, me abrir – se eu deixo o pássaro voar, eu não sou mais uma gaiola. Eu posso ficar imóvel e aceitar que sou uma gaiola sem propósito, ou eu posso entender o que eu quero, os detalhes, enxergar o que foi mal interpretado, onde é fixação/obsessão e onde é escapismo. E isso não é uma resolução de ano novo! O tempo (físico) tá aí correndo, e eu posso e devo começar agora.

Inclusive, eu cito muito Kafka. Esses dias postei algo dele também (“Há esperança suficiente, infinita – mas não para nós.”), e talvez seja hora de eu juntar o que aprendi com ele e jogar na fogueirinha da mudança.

Há esperança sim, enquanto nós lutarmos. Abençoados sejam os pacificadores, disse Jesus. Um pacificador não é um pacifista, é o cara que se joga na luta pra acabar com ela e trazer a paz. Essa guerra eu vou pacificar, independente de quantas batalhas eu perca, e eu perdi muitas em 2019. Mas… foda-se.

Eu ainda estou aqui.

E é claro que isso virou uma postagem motivacional e filosófica de redes sociais, mas espero ter conseguido não ser besta, clichê, coach quântico, positivo e\ou prolixo demais.

Na real estamos todos fodidos e só o que temos que fazer com nosso tempo é fingir que não até ser verdade.

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